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Virginia Woolf: de escritora sensível a feminista consciente

Uma escritora à frente de seu tempo. Uma feminista que revolucionou a posição das mulheres na Inglaterra vitoriana. Uma mulher que viveu um casamento sem paixão. Virginia Woolf foi capaz de transformar seu sofrimento, como nenhuma outra, em literatura de primeira classe. Apesar do passar dos anos, sua vida continua a fascinar, e seu trabalho é relevante até os dias de hoje.

O inferno no Hyde Park

Adeline Virginia Stephen nasceu em 25 de janeiro de 1882 em Londres. Seus pais, Sir Leslie Stephen e Julia Prinsep Duckworth, casaram depois de ficarem ambos viúvos. Eles haviam se mudado para a casa Hyde Park Gate com seus filhos de casamentos anteriores. O ambiente da casa estava longe do sonho familiar, já que as regras rigorosas deviam ser obedecidas pelas crianças, que de forma alguma podiam ir contra a vontade dos pais.

Virgínia mostrou interesse em literatura desde cedo. Embora seu pai, que era uma figura famosa no mundo literário, visse o potencial de sua filha, ele decidiu não investir em seu talento. Com o intuito de aprender mais, Virgínia roubava livros da biblioteca de seu pai, pois o ensino superior, em sua família, era reservado aos homens.

Em 1895, sua mãe morreu devido a complicações da gripe. A meia-irmã de Virgínia, Stella, assumiu o cargo de chefe da casa, mas logo ela também faleceu. O pai da família também acabou por não sobreviver a essas tragédias. A perda tanto dos pais quanto da irmã contribuiu para o colapso nervoso de Virgínia e para a sua primeira tentativa de suicídio. Depois de passar um tempo internada, após retornar do hospital, seu meio-irmão George abusou sexualmente dela, sobre o qual ela só escreveu anos mais tarde em seu livro A Viagem.

Um Ar de Liberdade, Bloomsbury e o Casamento

Após deixar a clínica psiquiátrica, Virginia, junto com sua irmã Vanessa e seus irmãos Adrian e Thoby, deixou a casa cheia de tristes lembranças e mudou-se para Bloomsbury. Lá, livre da proibição de se aprofundar em assuntos acadêmicos, iniciou disputas intelectuais e rapidamente se tornou uma parte igualitária na discussão. O ar de liberdade teve vida curta, porém, quando Vanessa se casou e Thoby morreu de tifo. Virgínia se sentiu mais uma vez solitária. Temendo seu próximo colapso nervoso, a irmã Vanessa decidiu que ela também deveria se casar.

A escolha recaiu sobre Leonard Woolf, um funcionário público estável e sereno que dava seus primeiros passos como escritor. Embora Virginia tenha se casado com ele em 1912, a relação nunca foi consumada. Oficialmente, Leonard temia que demasiada excitação sobre sexo pudesse prejudicar o equilíbrio mental de sua esposa. A verdade, no entanto, é que Virgínia nunca havia superado seu desagrado pelos homens. Ela se sentia, no entanto, atraída pelas mulheres.

Estreia literária e crítica

Em 1915 foi publicado o primeiro romance da Virgínia, "A Viagem". Embora sua estreia literária tenha sido muito bem recebida, houve várias críticas negativas que incomodaram a escritora. Woolf nunca foi capaz de se reconciliar com as críticas; ela era uma perfeccionista em todos os sentidos. O estado mental da Virgínia piorou. Preocupado com a condição de sua esposa, Leonard alertou sua irmã e ela decidiu internar Virgínia em um hospital psiquiátrico. Horrorizada com a possibilidade de voltar à ala onde métodos terríveis eram usados, a escritora fez outra tentativa de suicídio, mas acabou sendo salva no último minuto por um vizinho. Woolf retornou a uma vida aparentemente normal e começou a trabalhar em outro livro.

Um casamento sem paixão

Embora lhes faltasse paixão no relacionamento, Leonard devotadamente cuidou e apoiou Virgínia ao longo de sua vida. Quando ela estava trabalhando em um livro após sua segunda tentativa de suicídio, ele seguiu a orientação médica de não sair do lado da esposa. Virginia, apesar de nunca ter amado seu marido, sem dúvidas o respeitava. Ela tentou cumprir os deveres impostos pelos tempos em que viveu e chegou até a se matricular em aulas de culinária.

Como não era possível viver da escrita, em 1917, Leonard teve a ideia de fundar uma editora para ajudar no orçamento doméstico. A Hogarth Press publicou, entre outros, trabalhos de T. S. Eliot e James Joyce, o que garantiu uma renda estável. Virgínia, entretanto, não tinha intenção de abandonar seu próprio trabalho por causa de suas funções na editora. Em 1922 ela escreveu "O Quarto de Jacob", e em 1925 mais quatro romances: "Os mais vendidos" "Sra. Dalloway", "As Ondas", "O Farol" e "Orlando", que foram muito bem recebidos pelos críticos.

Em 1922, Virginia conheceu Vita Sackville-West, escritora e poetisa aristocrata, esposa de um diplomata e que não fazia segredo a respeito das suas preferências sexuais. Sua amizade, que por muitas vezes envolveu algo mais, durou o resto da vida de Woolf. Embora Leonard soubesse do caso da esposa, ele optou por não mencioná-lo.

A paz de cada um e o fim da luta

Em 1929, Woolf publicou seu ensaio inovador "Um Teto Todo Seu", que se tornou um marco na história da literatura feminista. Nele, Virginia escreveu que para ser feliz em um mundo dominado pelos homens, uma mulher deve ter uma educação sólida e um emprego que garanta independência financeira. Palavras que permanecem verdadeiras até os dias de hoje. Woolf finalmente se sentiu apreciada e satisfeita. A crise parecia ter acabado. Infelizmente, ela não possuía garantia de estabilidade emocional, portanto outra catástrofe era iminente.

Posteriormente, quando sua saúde começou a se deteriorar, Virginia se recusou a comer, parou de escrever e deixou de manter um diário. A situação política na Europa também contribuiu para a decadência do seu estado mental. Virginia sabia o que poderia acontecer com seu marido, que era judeu. Em 1940, o casal foi colocado na lista negra pelo Terceiro Reich e Leonard prometeu a sua esposa que se houvesse uma invasão nazista, eles cometeriam suicídio juntos.

No entanto, Virginia sentiu um peso maior sobre sua irmã e seu marido. Ela decidiu escrever a Leonard: “Querido, a verdade é que estou novamente dominada pela loucura. Sinto que não podemos passar juntos por este momento terrível. E desta vez eu não vou me recuperar”. Ela estava convencida de que a única solução era tirar sua própria vida. Em 28 de março de 1941, ela colocou pedras pesadas nos bolsos do seu casaco e entrou no rio Ouse, perto de sua casa, em Rodmell. Inicialmente, Virgínia foi declarada desaparecida. O corpo da escritora foi encontrado apenas um mês após ela ter se afogado. Leonard nunca havia aceitado a morte de sua esposa, a quem ele amava à sua maneira. Diz-se que para o resto de sua vida ele procurou a silhueta da Virgínia no jardim. Leonard enterrou as cinzas da esposa no pátio da casa, sob os olmos gêmeos que o casal chamou de Virginia e Leonard.

Suspeita-se agora que Virginia Woolf sofria de desordem bipolar. Talvez hoje em dia ela pudesse ser ajudada, mas nas décadas de 1930 e 1940 a medicina era impotente diante desta doença.

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